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“O tempo é irrelevante, ele não é linear”, Bono proclama no início de No Line on the Horizon, o décimo segundo álbum de estúdio da banda, que foi lançado no dia 3 de março, mas já estava postado na página da banda no MySpace. Se você já gastou trinta anos no espetáculo, está na meia-idade, e ainda trabalha numa área comumente associada às pessoas de vinte anos, essa é uma postura acertada.  Essa é uma preocupação que o espetáculo de Bono sempre traz à tona, e isso resulta no álbum mais rico em temas da célebre carreira da banda. 

Primeiro, as más noticias. Produzido pelo agora famoso trio – Daniel Lanois, Brian Eno, e Steve Lillywhite, e gravado em vários estúdios ao redor do mundo (Dublin, Londres, Nova York, e Fez, Marrocos), Horizonocasionalmente sofre de cansaço de vôo.  Ele dá a impressão de que foi reunido cuidadosamente, em vez de ter fluído naturalmente. As onze músicas, mais esculpidas do que tocadas, revelam uma habilidade, um brilho profissional que muitas vezes inibe uma banda conhecida por causa da sua música energética.

Mas isso é apenas um detalhe. No Line on the Horizon não é o melhor disco da banda, nem mesmo a radical reinvenção que Bono havia anunciado em várias entrevistas de pré-lançamento. É nada mais, nada menos que U2, cheio rifes fortes e estridentes, e refrões empolgantes que sempre marcaram os melhores trabalhos da banda. E como um compêndio do som que tem definido U2, o disco é uma enciclopédia há três décadas em formação. 

As primeiras quatro músicas são um desafio. Na musica de abertura, No Line On The Horizon, Bono propõe uma avaliação ilimitada do comprometimento, tanto material quanto espiritual, que funciona como uma canção de amor e como um comentário sobre as fantasias de um namoro perfeito. Sustentado pelo estimulante ritmo da guitarra de The Edge, ele fala de um amor que é ao mesmo tempo perceptível e  misterioso, daqueles que não podem ser compreendidos.  A excelente canção Magnificent é a música de adoração mais explícita da banda desde Gloria, de 1981. Um belo hino de louvor, que cresce sobre o rife batido de The Edge e pelo tenor de Bono:

Eu nasci para cantar para você
Eu não tive uma escolha, mas para levantar você
Só o amor, pode deixar tal marca
Mas só o amor pode curar tal cicatriz

Em Moment of Surrender, discutivelmente a principal música do disco, Bono retorna ao formato Power-ballad que impulsionou clássicos como One e I Still Haven’t Found What I’m Looking For. A música traz um estilo antigo, emocional, cheio de paixão justificada e melodias gospel. É a faixa mais forte de HorizonUnknown Caller é algo mais completo, um roqueiro nervoso apresentando um sonoro coral, que é certamente uma ótima combinação. Tomadas juntas, essas quatro músicas compõe a abertura mais forte desde AchtungBaby, e oferecem a prova de que os homens de cabelo  grisalho ainda tem combustível no tanque. 

Bono escreve uma de suas mais reflexivas e profundas letras, os temas explorados se expandem e se desenvolvem música após música. Dá pra fazer aqueles comentários comuns, “Isso é Jesus ou uma namorada?”, mas aqueles que desejam mais profundidade encontrarão muita coisa para desfrutar. Este é um álbum sobre o Tempo: a destruição da inexorável marcha de dias e horas, chronos e kairos, calendário e relógio contra aqueles momentos que não estão no tempo, que nos sustentam, aqueles nos quais encontramos algo de divino.  Esse é um tema explorado explicitamente em Moment of Surrender e em Unknown Caller, e sutilmente em faixas como o rock religioso Breathe e na canção final Cedars of Lebanon.

Esse é um álbum feito por homens de meia-idade que ainda tocam como garotos, bem conscientes da condição ridícula da aparência das coisas, procurando e, às vezes, achando razões para prosseguir. Intrinsecamente, essas são músicas que nunca deveriam ter sido escritas por Bono Vox, o tranqüilo e jovem idealista dos primeiros discos. E intrinsecamente, essas são músicas que só poderiam ter sido escritas por Bono Vox, o maduro e irônico rock star, apaixonado por Jesus e por ele mesmo, inconformado com as contradições deste mundo.  São músicas espirituais e humanísticas de ótima qualidade.

No Line on the Horizon enfraquece no meio do álbum, com I’ll Go Crazy if I Don’t Go Crazy Tonight, que lembra muito a turnê Faithfully, na década de 80. Ela foi tão conturbada quanto essa música, apesar de The Edge fazer o melhor para dar vida aos acordes da música. A música seguinte, Get On Your Boots, apenas reprisa Pump It Up, de Elvis Costello, que foi uma clara reprodução de Subterranean Homesick Blues, do Bob Dylan.

Mas o álbum termina bem, com a adorável White as Snow, a balançante Breathe, e a triste Cedars of Lebanon, uma agitada balada sobre uma jornalista colocada longe de casa e da família. Não se trata de um sucesso absoluto. Mas nas melhores músicas desse álbum, eles saíram um pouco do temporal para encontrar o eterno. Essa é uma grande jogada, e apesar de o U2 já ter usado essa estratégia, isso não torna o disco menos sensacional.

 

por Andy Whitman – Christianity Today