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Abbey Road, Clube da Esquina e outras influências…

Posted on: 30/01/2009

 

Beatles-Abbey Road

Texto muito bom sobre música e a influência que ela tem em nossas vidas. Leia o texto todo, pois ele é muito bom e vai te ajudar a tirar muitas dúvidas. 

Quando falamos de influências recebidas, como evangélicos, quase sempre negamos o que recebemos “dos de fora”, ou negamos nossa história “pré-conversão”. Como se não fizesse parte da história de Deus em nossas vidas. Até por que isto não soa santo, espiritual, cristão, evangélico, puro, inspirado ou profético.

Há um sentido em que todos os agentes naturais, até mesmo os inanimados, glorificam a Deus continuamente, revelando os poderes que Ele lhes deu. E nesse sentido nós, como agentes naturais, fazemos o mesmo. Nesse nível, os nossos atos iníquos, no sentido em que eles exibem nossa perícia e força, pode dizer-se que glorificam a Deus, tanto quanto nossas boas ações. Uma peça musical executada com excelência, como operação natural que revela um grau alto dos poderes e habilidades dados ao homem, desta forma sempre glorifica a Deus, seja qual tenha sido a intenção dos executores” C.S.Lewis, no capítulo “On Church Music”, do livro Christian Reflections.

 

Muito desta postura e pensamento existe porque na base e no fundamento teológico de muitos, o mundo foi criado por Satanás e não por Deus, de que o diabo é criador e não criatura, que os homens são criaturas das mãos do diabo e não de Deus, distorcendo a revelação das Escrituras Sagradas. Demos indevidamente o copyright ao inimigo de nossas almas sobre a criação e sobre ass artes, e não ao Senhor Deus, Criador, Senhor e Soberano sobre tudo e todos.

História é história, não há como negar ou fazer desaparecer influências que tivemos e ainda temos, e quando tentamos fazer isto, entramos em processos de sublimação, de alienação, de fuga da realidade, sinais de doença instalada e que sugerem a necessidade de processos terapêuticos e de aconselhamentos posteriores.

Alguns ainda sugerem uma tal e distorcida “cura interior” do passado, como se toda a herança e formação que tivemos fossem necessariamente ruins. A herança adâmica sim, em nossa natureza, que não nos ajuda no caminho da salvação e redenção. Mesmo assim, ela ainda nos acompanhará até o final dos tempos. Mas outras heranças, com outro foco, de formação cultural, por exemplo, podem ter sido excelentes e nos balizam ainda hoje no que somos, pensamos e fazemos na vida.

Isto não significa que estas pessoas, pensadores ou artistas, são exemplos em tudo de conduta, muitos com vidas e histórias cheias de crises e pecados (como os homens e mulheres da Bíblia). Mas tiveram ou têm alguma capacidade no que fizeram, ou um bom legado que deixaram, seja na área educacional, científica ou artística.

Eu, que não tive “berço evangélico” ou “maternidade evangélica” (afinal ouvia quase sempre de irmãos: “…eu nasci na igreja…”), fui menos preconceituoso com o que recebi através de pessoas não cristãs. Em minha formação familiar e estudantil, por exemplo, tive ótimos referenciais e professores que me ajudaram a absorver valores, cultura e informação. Louvo a Deus hoje por eles, e sei que foi Ele mesmo que planejou e os colocou em minha vida. Aprendi inclusive com os erros, limitações, “pisadas na bola” e enganos deles.

Minha formação musical foi ampla e também vinda de pessoas e músicos não cristãos, muitos que citarei abaixo. Tenho hoje também, como cristão, bons referenciais de artistas cristãos e de arte cristã, que alimentam minha fé, minha adoração, que formam minha CDteca e que ajudam a desfrutar da beleza da criação. Pimenta, Aristeu, Arlindo Lima, Camargo, Guilherme, Gerson Ortega, Quico Fagundes, Gladir Cabral, Daniel Maia, João Alexandre, Asaph, Phil Keaggy, Michael Card, Andraé Crouch, Keith Green, Maranatha Music, etc. Mas, esta abordagem é para outra reflexão que não esta.

 

LosHermanosMiltonU2DeliriousMuteMathUnited

 

Reflito hoje em minha história. Minha mãe Laura era cantora profissional, cantora do rádio em São Paulo, excelente pianista e artista sensível. Admirava música brasileira e colocou nome de duas filhas de músicas de Dorival Caymmi: Marina e Dora. Ensinou-me a tocar violão com músicas dele e de Inezita Barroso e até hoje curto e assisto o seu programa na TV Cultura. Silvio Caldas, Orlando Silva, Altamiro Carrilho e outros, tornaram-se conhecidos em nossa casa.

Tínhamos uma “eletrola” Telefunken, valvulada, tipo armário, que ficava ligada grande parte do dia e por lá passavam os discos que meus familiares gostavam.

Meu pai Fenelon, com suas músicas clássicas, músicas de banda sinfônicas (aquelas que ouvia e via nos coretos de Limeira, cidade do interior de São Paulo) ligado no programa de rádio do Moraes Sarmento na Bandeirantes.

Meu irmão Roberto, pianista e músico profissional, ouvindo Tom Jobim, João Gilberto, Gil, Elis, Bach, Beethoven, Bill Evans, Dave Brubeck, Quincy Jones, minha irmã Marina trazendo os discos dos Beatles, James Taylor, Bob Dylan, Elton John, Roberto Carlos; e eu ouvindo isto tudo e mais Mutantes, Terço, Guilherme Arantes, Emerson, Lake and Palmer, Yes, Focus, Deep Purple, Led Zeppelin, Tim Maia, e a tchurma do Clube da Esquina, vento maravilhoso de Minas Gerais.

Lembro-me do meu irmão Roberto me levando a um show com um público de umas 50 pessoas somente, no teatro da Fundação Getúlio Vargas para assistir um “tal” de Milton Nascimento, Lô e Marcio Borges, Wagner Tiso, Nelson Ângelo, Beto Guedes, Toninho Horta, cantando e tocando coisas maravilhosas deles e de Fernando Brant. De que planeta estes músicos maravilhosos vieram? Quanta beleza e criatividade!!! Eram do Clube da Esquina, hoje transformado em museu e espaço histórico.

Bom, minha mocidade foi definitivamente marcada por Lennon e McCartney e suas gravações no EMI´s ABBEY ROAD studio (minha e a de uma geração toda né? hehehe), do rock tradicional e progressivo, e pelos “garotos” repletos de musicalidade, poesia e brasilidade de Minas Gerais.

Daí, veio a conversão dos 17 para os 18 anos em 1972. Entro na igreja evangélica e tenho um choque cultural e musical. Começo a tomar contato com músicas do Cantor Cristão, hinário batista, ouvir todos os dias minha mãe tocar ao final de tarde hinos que viriam a fazer parte de minha vida, acompanhar cantatas tocando e cantando, gravar discos evangélicos, fazer parte de um momento na história da igreja no Brasil de avivamento em trabalhos com juventude e da experiência de Vencedores por Cristo.

Por imaturidade e ignorância, anos antes vendi minha guitarra Gibson por achar que não poderia usar “um instrumento que usava na velha vida”. Mas tinha uma outra que guardei (pecador eu, não?), uma Fender Jaguar Branca, igual a do Jimi Hendrix, onde toquei e solei no dia do meu batismo dentro de uma igreja batista tradicional o “Vencendo Vem Jesus”, com o histórico pedal Big Muff. Quando descobri que instrumento é só “um instrumento”, comprei novamente uma Gibson, testemunha até hoje de boa parte da história recente da música cristã.

Um grande amigo nesta época, Gerson Ortega, músico e hoje pastor, ajudou-me muito a lidar com a questão da música. Sentia-me “menos culpado” de ainda gostar de música chamada secular ou “do mundo” quando encontrava na casa dele algum disco de conjuntos e músicos não cristãos que admirávamos.

Ajudou-me a ter critérios, a absorver o que é bom, junto com Guilherme Kerr, companheiro de canções, que viveu e foi influenciado também pela música dos anos 60-70. Os escritos de Francis Schaeffer (”O Deus que intervém”), C. S. Lewis (”Cristianismo Autêntico”) e John Stott (”Contracultura Cristã”), foram balizadores em meu refletir e pensar de forma cristã.

Inclusive por que pensava e continuo pensando que a criatividade e inspiração têm sido dada a pessoas e artistas não cristãos, que de alguma forma manifestam a criatividade de Deus. Isto é, um incrédulo pode ser mais ou tão criativo do que um crente confesso. É o que constato quando analiso as artes de maneira geral, e quando ouço a mesmice e a falta de criatividade das composições e produções chamadas evangélicas de nossos dias.

O próprio João Calvino declarou (Lectures on Calvinism, de Abraham Kuyper) que “a arte é dada por Deus indiscriminadamente, tanto para crentes quanto para incrédulos”, o que os teólogos chamam de “graça comum”. Ele escreveu certa vez que “as irradiações da luz divina brilharam mais radiosamente entre pessoas incrédulas do que entre os santos de Deus”.

Ainda, às vezes, ao ouvir uma música, composição de outros artistas ou minha mesmo, deparo-me com uma seqüência melódica ou harmonia que “já tinha ouvido em algum lugar”. As inéditas ou consideradas por mim inspiradas por Deus, vem impregnadas de referências sonoras ou de letras, absorvidas por minha mente e sentimentos durante meu crescimento e história.

A inspiração divina é soprada em homens e mulheres com suas heranças culturais e realidades, movimentos que fazem a história de Deus na história dos homens. E o evangelho vem com seus valores e mensagem, transformar, redimir o homem, sua cultura, sua arte, sua história, balizando o Seu reino.

Agradeço a Deus pelo que vi, escutei e aprendi em minha história, agradeço por ser um simples mortal e terráqueo, que absorveu e gostou de muita coisa feita por não cristãos e ainda gosta. Pessoas a quem Deus ama profundamente. Tenho aprendido a discernir e reter o que é bom. Nem tudo é bom e edifica. Canalizo minha admiração por eles sem idolatria ou sem se tornarem objeto de culto, e consigo adorar a Deus pela capacidade criativa dada a cada um deles. Sinto-me livre para ouvir e apreciar.

Lennon e McCartney fizeram coisas lindas e revolucionárias (até os banais e descartáveis, com os arranjos do George Martin, o “quinto beatle”, ficavam bonitas), mas não sou defensor do “Let it Be” como estilo de vida. Soube que George Harrison conheceu a Cristo antes de morrer (este buscou a Deus e o significado da vida). Se for verdade, agora desfruta da presença do Sweet Lord verdadeiro, não do Hare Krishna.

Sou mais hoje “plantar o trigo e refazer o pão de todo e cada dia, beber o vinho e renascer na luz de cada; a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada, o brilho cego de paixão e fé, faca amolada; deixar a Sua luz brilhar e ser muito tranquilo”, cantada pelo Beto e Milton.

Quero mais o Deus amigo de Gladir Cabral, compositor e pastor: “bom é ter um prato cheio na mesa, a mesa farta de amigos, amigos plenos da vida, a vida em sopros divinos, sopros de luz, claridade, luzes que mostram caminhos, e sendas que dão liberdade, honra, juízo e atino…”.

O Deus das Escrituras, O Grande Artista, está na simplicidade da vida, nos relacionamentos, no cotidiano, e manifesta sua presença e criatividade também nas artes e em artistas em toda a história. Precisamos é perceber e identificar Sua presença. “Repreender” menos o conteúdo de nossa história e APRENDER mais dela. E adorar a Ele, porque esteve sempre presente em nossa caminhada!

Texto de Nelson Bomilcar. Provoice

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2 Respostas to "Abbey Road, Clube da Esquina e outras influências…"

Aleluia! É tão bom ouvir isso, pq realmente ainda existem pessoas que acham que pelo fato de sermos evangélicos não podemos ouvir mais nada além de músicas evangélicas!
Louvo a Deus por esse esclarecimento!

Demais este texto!

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